Literatura Narrativa

Fernando Pessanha presenta A Devota e a Devassa en Madrid

Fernando-Pessanha
El martes 28 de junio a las 20.00 el escritor portugués Fernando Pessanha presentará su novela  A Devota e a Devassa en María Pandora, Madrid  (Plaza de Gabriel Miró, 1, Las Vistillas).

 

pessanha

 

 

“con este nuevo libro, A Devota e a Devassa, el estilo literario de Pessanha respira en todas sus páginas. Pero, una nueva vertiente de exploración conduce la historia: el humor, la ironía y el sarcasmo. Se trata de una novela picaresca breve ambientada en el siglo XVIII (…) que nos da a conocer, a través de breves y geniales pinceladas, la sociedad y el país, las gentes y las clases sociales de esa época”.

Vitor Cardeira, editor de 4Águas Edições

“la mestría de Fernando Pessanha como fabulador (…) vuelve a reflejarse en esta novela: dispersando informaciones discretas a lo largo del relato, que nos van preparando para el desenlace, pero que nos coge totalmente desprevenidos, con lo que por dicho motivo apreciemos aún más la elegancia y la inteligencia con que nos sorprende”.

Adriana Freire Nogueira, prologuista de la obra

A continuación publicamos el prólogo y la nota el editor que aparecen en el libro.

Prefácio

Escrever um prefácio é tarefa grata, quando temos pela frente uma história como esta que Fernando Pessanha nos apresenta, com humor e graça. Mas também não deixa de ser uma tarefa ingrata, por não dever permitir que o véu se levante e se descortine o final.

Esta novela breve, como lhe chama o autor (porque maior do que um conto e mais pequena que uma novela tradicional), passa-se no fim da Idade Moderna (século XVIII) e é composta por 10 pequenos episódios que acompanham D. António Correia de Vasconcelos e a sua devota esposa, a “prezada Amelinha, mais devota que a própria rainha D. Maria”. Este estribilho, que acompanha a personagem Amélia, a jovem esposa do morgado, é confirmado pelo comportamento exemplar da jovem que, na sua devoção, mantém distância do marido, não se deixa ver sem roupa, reza na sua capela privada e percorre incansavelmente, os “santuários dedicados ao culto do sagrado”. Toda esta piedade é o mote para uma série de peripécias, desde a sua mudança do campo para a cidade até à ida para o Brasil.

O narrador desta história desempenha um papel muito variado e fundamental para que o enredo seja compreensível e, ao mesmo tempo, não desvele em demasia. Se, por um lado, é externo à história, não se apresenta como omnisciente, pois não aparenta saber o que se passa com as personagens para além daquilo que elas lhe querem dizer (por exemplo, ele sabe que D. Amélia fica a rezar na capela, mas não sabe que igrejas visita no seu périplo diário). Com D. António no centro da trama – é na relação que têm com ele que as outras personagens são apresentadas (a esposa, o amigo, os criados) – e apesar de não saber tudo – ou de nos querer fazer crer que assim é – o narrador sabe um pouco mais do que o fidalgo e vai-nos elucidando sobre alguns pensamentos íntimos das outras personagens, na medida do seu conhecimento, que oscila entre o que seriam as notícias que chegariam à sociedade da época e aquelas que cada um guarda apenas para si, como se lhas tivessem confidenciado.

O título alerta-nos para uma situação dúbia, potencialmente de enganos, com tom humorístico. Logo no início, a descrição do contraste entre D. Amélia e seu esposo, consegue, pelo seu exagero, fazer-nos entrar no espírito da narrativa e também no da época descrita. Aliás, o cuidado histórico é notável, ou não fosse o autor um historiador de formação, podendo ser apreciado quer no tom da linguagem usada (note-se a existência de profissões hoje desaparecidas, como juiz de fora ou ouvidor, ou o uso da segunda pessoa do plural entre interlocutores com algum grau de intimidade, como entre marido e mulher ou entre dois amigos), que nos remete para um certo timbre da época, quer nas explicações prestadas com naturalidade e sempre a propósito. Também com algum humor, são alvitradas explicações de factos históricos.

A mestria de Fernando Pessanha como ficcionista, com vocação para o suspense, já demonstrado em obras anteriores (como Hotel Anaidaug ou Encontros Improváveis), torna a espelhar-se nesta novela: dispersando discretas informações na narrativa, que nos deveriam preparar para o desfecho, apanha-nos desprevenidos, fazendo com que, por isso, apreciemos ainda mais a elegância e a inteligências com que nos surpreende.

Adriana Freire Nogueira

Nota do editor

Fernando Pessanha é um homem multifacetado. “Multiverso”, como dizia um outro Fernando… Com efeito, a sua obra estende-se por paisagens culturais que, parecendo diversas, se interpenetram e prolongam, fazendo emergir uma obra artística fecunda e transparente. Intimista e cosmopolita. Revelando uma profunda carga antropológica e, ressalve-se a redundância, ética e social.

Com formação nas áreas da História e da música, cedo se aventurou nos terrenos sinuosos da escrita ficcional. Liberto das “peias” da ciência, espraia-se na literatura como criança à solta na planície sem fim. Sem princípio, mas com princípios. Com produção científica reconhecida na área da História, e na sua divulgação, nomeadamente no que diz respeito à historiografia e desenvolvimento de laços culturais entre as margens do golfo magrebino, Algarve e Andaluzia; com peças musicais de excelência registadas na S.P.A., mobiliza e transporta destas áreas para a ficção importantes registos histórico/culturais que lhe transmitem um especial perfume, uma atmosfera, uma especificidade literária única e com um estilo artístico inconfundível. Não é por acaso que o seu livro Hotel Anaidaug, para além do sucesso “viral” obtido, rapidamente salta do papel para película, para o plateau, e é adaptado ao cinema. Nem é por acaso que o seu romance O Pianista e a Cantora se manteve nos tops de vendas de eBooks da Coolbooks/Porto Editora durante semanas.

Outra marca idiossincrática que emerge da sua escrita é a sexualidade. Ou melhor: a eroticidade das figuras femininas da sua criação. Figuras femininas à volta de quem tudo gira numa atracção fatal. Um destino que tudo conduz até ao abismo. Uma força imparável para além da razão. História, música e sexualidade uma trindade mágica que tornou Fernando Pessanha um escritor de culto e um viajante na senda da sua própria obra: passada e … futura.

Com este novo livro, A Devota e a Devassa, a matriz literária de Pessanha transpira a partir de todas as linhas. Mas, uma nova vertente exploratória conduz a estória: o humor, a ironia e o sarcasmo. Breve novela picaresca passada na centúria de setecentos, nos conturbados anos em que governantes como o Marquês de Pombal ou a rainha D. Maria I regeram a História do infeliz reino, dá-nos a conhecer, em breves e geniais pinceladas, a sociedade e o país, as gentes e as representações sociais da época. Oferece-nos breves apontamentos de eventos perdidos na memória que, para além do interesse histórico/cultural, nos enriquecem e ajudam a entrar no espírito do tempo, como são os casos dos deliciosos apontamentos sobre a “ Guerra Fantástica” na Europa, as “Novas Conquistas” na Índia ou “A Guerra dos Doidos”, em Timor.

É pois, um novo caminho literário que o autor rasga nas estranhas (entranhas?) e perigosas terras da escrita. Podemos dizer, nós que já tivemos acesso à obra e, por isso, afirmar com sustentação, que o livro irá fazer o seu caminho e, certamente, continuará o processo de afirmação e sucesso do escritor e da sua obra.

Vítor Gil Cardeira

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